Estátua de Iemanjá está decapitada há 8 anos na PB, e fórum associa falta de solução a ‘ser uma religião de pretos’


No Dia de Iemanjá, a Prefeitura de João Pessoa diz que plano para reformar a praça onde fica a estátua danificada espera manifestação favorável da SPU para licitação. Estátua de Iemanjá, localizada na praia do Cabo Branco, em João Pessoa Luana Silva/g1 A estátua de Iemanjá - orixá cultuada nas religiões do candomblé e da umbanda - localizada na orla do Cabo Branco, em João Pessoa, está decapitada desde 2016 e a praça onde que a imagem fica localizada está em condições precárias. O Fórum de Diversidade Religiosa da Paraíba considera que a demora por parte do poder público para resolver a situação aconteça devido "ao fato de ser uma religião de pretos". O dia 2 de fevereiro comemora o Dia de Iemanjá em algumas regiões do Brasil. Cronologia do vandalismo contra a estátua de Iemanjá e busca por soluções: Março de 2016: estátua de Iemanjá é decapitada em ato de vandalismo e desde então permanece danificada; Fevereiro de 2023: Prefeitura anuncia que vai reformar a praça onde fica a estátua; Fevereiro de 2023: Fórum de Diversidade Religiosa defende que estátua seja transferida para outro local para evitar novos vandalismos; Dezembro de 2023: Ministério Público promove audiência para cobrar soluções para o problema; Janeiro de 2024: MP dá 15 dias para a Procuradoria-Geral do Município de João Pessoa se pronunciar sobre a possibilidade de realocação da estátua para o Largo de Tambaú; Fevereiro de 2024: Prefeitura diz que projeto da reforma da praça está aprovado pelo Comitê Gestor da Orla e aguarda manifestação favorável da Superintendência de Patrimônio da União (SPU) para ser colocado em prática. Imagens do projeto não foram divulgadas; Fevereiro de 2024: SPU afirma que o processo de revitalização ainda não chegou no órgão. O vandalismo contra a estátua de Iemanjá A estátua de Iemanjá, localizada em uma praça na beira do mar do Cabo Branco, está sem a cabeça desde o mês de março de 2016, quando foi alvo de vandalismo. Em abril de 2013, a estátua teve sua cabeça arrancada e as mãos decepadas pela primeira vez. À época, o Patrimônio Artístico e Cultural de João Pessoa restaurou a imagem da divindade considerada pelas religiões de matriz africana rainha do mar, mas a estátua foi vandalizada novamente. Após vandalismo, estátua de Iemanjá está sem cabeça, em João Pessoa TV Cabo Branco Na época, adeptos das religiões de matrizes africanas denunciaram intolerância religiosa, prática considerada criminosa conforme a lei federal 9.459 de 1997. A pena prevista para o crime é a reclusão de um a três anos, além de multa. Uma denúncia quanto ao ato de vandalismo foi formalizada junto à polícia, à época, mas as investigações não conseguiram identificar nenhum suspeito. Projeto de revitalização ainda não saiu do papel A Secretaria de Planejamento de João Pessoa (Seplan) informou ao g1 que o projeto de reconstrução da praça de Iemanjá está sendo submetido para análise da Secretaria de Patrimônio da União (SPU) e aguarda o sinal verde para início de licitação. De acordo com nota emitida pela Seplan, o orçamento para a obra é de R$ 662,7 mil e a organização quer revitalizar o local em que a praça está, além de conceder uma nova estátua, substituindo a anterior, que está decapitada e também com a pintura danificada. Prefeitura de João Pessoa diz que vai revitalizar praça onde fica a estátua de Iemanjá, mas não divulgou o projeto nem cronograma TV Cabo Branco/Reprodução A Seplan informou também que o projeto de revitalização da praça inclui a recuperação da arquibancada existente no local, a substituição da estátua, a inclusão de bancos e um largo para realização de eventos, além de estacionamento. O g1 solicitou o esboço do projeto da praça à Seplan, que informou que existe um plano de elaborar uma maquete eletrônica da obra. No entanto, o órgão disse que no momento só tem a planta baixa do projeto e que não vai divulgar essas imagens. O órgão ainda disse que esse projeto já está aprovado pelo Comitê Gestor da Orla e aguarda manifestação favorável da Superintendência de Patrimônio da União (SPU) para que a partir disso o processo de licitação da obra comece. No entanto, em contato com o g1, o superintendente de patrimônio da União, Giuseppe Marinho, disse que o processo de revitalização ainda não chegou no órgão para que ele desse qualquer tipo de parecer, seja favorável ou não. Ainda não existe um prazo para conclusão de todo o processo. Fórum de Diversidade Religiosa fala em racismo religioso Estátua de Iemanjá, em João Pessoa, foi vandalizada em 2016 Luana Silva/g1 O g1 também entrou em contato com representantes do Fórum de Diversidade Religiosa da Paraíba, que por meio da responsável pelo Núcleo de Religiões de Matrizes Africanas da instituição, Tânia Ekèdi, afirmou que, ao contrário do que o projeto da prefeitura propõe, a comunidade religiosa quer a transferência da imagem de Iemanjá para outro local e não apenas a substituição da estátua por uma nova no mesmo lugar. A representante também afirmou que a nova estátua teria que ser feita de outro material e que a atual “não serve mais”. “Não é interessante para nós, povo de terreiro. Inclusive, pedimos a estátua em outro material, pois aquela, em gesso, não serve mais. Nem pra restauração, nem como simbologia”, ressaltou a representante do fórum. Além disso, Tânia Ekèdi disse que considera a demora em todo o processo para resolver a situação da estátua e da praça uma espécie de racismo religioso e institucional por parte dos órgãos competentes. “Sabemos que mesmo o nosso país é Laico, ou seja, neutro em termos religiosos e a proteção do direito ao culto. Mas nem o Estado ou a Prefeitura demonstraram interesse de fato em resolver esse problema. E só podemos relacionar isso ao fato de ser uma religião de pretos. Dessa forma, sim, caracteriza-se racismo religioso”, considerou. Em busca de uma solução Estátua de Iemanjá está decapitada desde 2016, em João Pessoa TV Cabo Branco Em dezembro, o Ministério Público da Paraíba (MPPB) realizou uma audiência com vários órgãos envolvidos na polêmica da estátua de Iemanjá. Essa audiência contou com representantes da Seplan, do Fórum da Diversidade Religiosa, do Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial da Paraíba, entre outros. Por parte do órgão estadual, a promotora Fabiana Lobo coordenou as ações. Nessa audiência, ficou decidida a criação de uma comissão entre os órgãos envolvidos para acompanhamento da questão junto com a Seplan. De acordo com Tânia Ekèdi, depois desse encontro não houve muitos avanços. Em contato com o g1, o MPPB emitiu uma nota dizendo que encaminhou ofício, no último dia 22 de janeiro, à Procuradoria-Geral do Município de João Pessoa solicitando pronunciamento sobre a possibilidade de realocação da estátua para o Largo de Tambaú, conforme defendem as lideranças religiosas. Foi concedido prazo de 15 dias para o envio da resposta. Vídeos mais assistidos do g1 Paraíba A

Dino

Deixe um comentário