*Por Mark Lurie e Peter Dittus

As potências ocidentais impuseram sanções financeiras sem precedentes em resposta à invasão na Ucrânia pela Rússia, marcando uma mudança geopolítica sísmica que pode levar muitos países a adotarem as criptomoedas.

Nos tempos modernos, os pagamentos internacionais e as reservas nacionais têm sido vistos, no geral, como propriedade do estado e omitidos de sanções punitivas quando os Estados Unidos não estavam, eles mesmos, em guerra.

Mas o que ocorreu nas últimas semanas modificou o cenário. Ao impor sanções sem precedentes, congelando as reservas de moeda internacional da Rússia e impedindo pagamentos de bancos russos, os EUA, a União Europeia e seus aliados revelaram uma recente disposição de transformar o sistema financeiro global com denominação no dólar em uma arma e potencialmente abandonar os Estados mais fracos.

Para explicar isso, primeiro temos que voltar um pouco. A Sociedade para Telecomunicações Financeiras Interbancárias Mundiais (Swift, na sigla em inglês), com sede na Bélgica, é a principal rede global de mensagens em transações executivas entre os bancos mundiais. Esse sistema é tão eficiente que muitos países também usam-no localmente. Por isso, mais de 42 milhões de mensagens passam pela Swift diariamente.

Qualquer moeda pode ser negociada através da Swift, mas mais de 40% dos seus acordos são denominados no dólar americano, o que tende a reforçar o sistema dos EUA com base no dólar. Não é de se admirar que, em 2015, a China tenha lançado um concorrente da Swift, o Cross-Border Inter-Bank Payments System (Cips), para aumentar o uso internacional do renminbi.

Durante a era Trump, enquanto uma guerra comercial nos EUA tomava forma, Pequim ligou investimentos internacionais da Iniciativa do Cinturão e Rota, de US$ 1 trilhão, envolvendo 70 nações, a um compromisso para utilizar o Cips. No ano passado, enquanto apenas 3% dos pagamentos na Swift envolviam o renminbi, o número de transações na Cips aumentou quase 60% e o valor delas, mais de 80%, chegando a 64 trilhões de renminbi.

Em 2017, a Rússia lançou o próprio concorrente da Swift, o System for Transfer of Financial Messages (SPFS). A adoção do SPFS foi menor, pois os custos de transação são mais altos e a economia da Rússia é 10% da economia da China. Mas, desde a imposição das sanções à Rússia, Moscou tem promovido bastante o uso de SPFS para parceiros importantes de trade que também são aliados do Ocidente, como Índia, Israel e os Emirados Árabes Unidos. O poder de Moscou vem das exportações de petróleo e gás.

Pagamento em rublos

O mercado internacional de petróleo e gás está avaliado em quase US$ 6 trilhões, ou 7% do PIB mundial, e é por isso que quase toda economia doméstica reage tão rapidamente a mudanças no preço do petróleo bruto. Desde a década de 1970, quando os EUA fez um acordo com a Arábia Saudita — que deu origem ao termo “petrodólar” —, o petróleo e o gás têm sido precificados e cotados exclusivamente em dólares americanos.

Mas isso pode mudar a qualquer momento. A Rússia pressionou os importadores europeus de seu petróleo e gás a pagar em rublos. Embora a Alemanha e outros tenham se negado, a Hungria concordou com esses termos.

Há anos, a China tenta comprar petróleo em renminbi e, segundo reportagem do The Wall Street Journal do mês passado, a Arábia Saudita está seriamente considerando a proposta. Este seria o maior desafio até agora para o sistema global denominado no dólar.

Também no último mês, Moscou anunciou que a Rússia e a China concordaram em conectar o Cips e o SPFS e sugeriu que as transações passariam a incorporar rublos e renminbi digitais. Segundo relatos, a Índia também se comprometeu a estabelecer um novo sistema com a Rússia.

Não é preciso ser um vidente para entender o que está acontecendo. Quando gigantes como Rússia, China e Índia se alinharem, é só uma questão de tempo até que países pequenos sejam pressionados a segui-los. O resultado final seria um sistema financeiro bifurcado, com um SWIFT e um não SWIFT.

Também é fácil perceber como países menores e menos poderosos poderiam se interessar por uma terceira opção — uma moeda de reserva neutra e um sistema de pagamento que não pode ser transformado em arma. De repente, eles deixariam de estar à mercê de poderes globais financeiros.

Criptomoedas como um sistema monetário alternativo

Como poderíamos alcançar esse cenário? Um caminho é a precificação. As empresas preferem denominar seus bens na mesma moeda que usam para pagar as despesas, que, no geral, é a moeda do país onde estão sediadas. Uma companhia aérea dos Estados Unidos, por exemplo, colocará as passagens à venda em dólares americanos — não porque acredita que o dólar é a moeda mais estável (embora talvez seja), mas porque concordou em pagar os salários e custos da gasolina com dólar.

Você pode se perguntar: mas e o empresário de Kyoto que compra suas passagens pelo site dessa companhia em iene? Não importa qual moeda o comprador escolhe, os bens e serviços foram denominados na moeda escolhida pela empresa; seu valor está, então, atrelado ao dólar americano.

É exatamente por isso que empresas não gostam de se comprometer a pagar bens do exterior com uma moeda estrangeira, porque eles vão sofrer o risco de flutuação daquela moeda. Muitos acabam comprando instrumentos financeiros complexos, como futuros e títulos derivativos, para limitar esse risco. Para empresas que começam a precificar em Bitcoin, seus custos vão precisar ser denominados na mesma moeda.

El Salvador se arriscou no ano passado e adotou o Bitcoin (BTC) como moeda legal. No ano passado, a Ucrânia aprovou o uso do BTC e outras moedas para pagamentos. O momento crítico pode ser quando um grande exportador de gás, como Venezuela ou Qatar, adotar as criptomoedas e precificar algumas exportações em Bitcoin. Uma vez que o petróleo e o gás possam ser denominados em criptomoedas, é provável que as empresas comecem a atrelar seus bens e serviços a essas moedas.

Agora, enquanto países começam a entender que alinhar com sistemas com base no dólar ou sistemas sino-russos deixam-nos expostos a movimentações geopolíticas, a pressão aumenta. Por enquanto, a hegemonia do dólar não é tão ruim. Os pagamentos são instantâneos. Além disso, substituir esses sistemas amanhã com stablecoins ou algum tipo de moeda digital do banco central (CBDC) provavelmente traria apenas algumas melhoras imperceptíveis.

A maioria dos países se perguntaria por que essa mudança foi feita. Só vai valer a pena para os consumidores saírem dos pagamentos em dólar quando os bens e serviços forem denominados nas criptomoedas. Depois disso, jogadores econômicos globais vão começar a ver as criptomoedas como uma unidade de conta viável para bens e serviços e talvez para pagamentos rotineiros também.

Para países menores que querem preservar sua soberania financeira e evitar desastres geopolíticos, o dia em que as criptomoedas surgirem como uma solução viável pode estabelecer um novo começo.

Mark Lurie é CEO e cofundador da Shipyard Software, que fornece software para trading de criptomoedas.
Peter Dittus é economista e ex-secretário-geral do Banco de Compensações Internacionais.

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