Recado do Fed foi passado e entendido; mercados se ajustam aos novos tempos

O recado foi dado pelo Federal Reserve – após anunciar nova alta dos juros em 75 pontos base – e entendido pelo mercado e por outras autoridades monetárias em todo o mundo: as taxas de juros nos EUA vão continuar a subir e por prazo maior que o estimado antes. E isso ao custo de uma retração econômica que pode até se transformar em recessão.

A Galápagos Capital avalia que haverá implicações duras para os mercados. “Com uma mensagem mais austera do Fed e um mercado que ainda não se ajustou, acreditamos que a pressão sobre os bancos centrais persistirá”, diz a corretora em relatório.

Segundo a análise, a probabilidade é que as autoridades monetárias vão provavelmente aumentar um pouco seus ciclos de aperto para refletir as condições financeiras mais apertadas globalmente. E que as moedas permanecerão sob pressão, dada a natural valorização do dólar pela inversão do fluxo.

Isso se provou já nesta quinta-feira com novas decisões de política monetária: os bancos centrais de todo o mundo – com as exceções do Japão e da Turquia – estão agora no time contracionista.

Para a Rio Bravo, a decisão e as falas já vieram em tom mais duro, mas o que imprimiu a posição “hawkish” do Fed foram mesmo as projeções (o chamado “dot-plot”), que apontaram para juros mais altos por mais tempo, além da perspectiva de crescimento modesto da economia americana pelos próximos anos.

Mais altas

A partir dessas projeções menos otimistas, o BBVA Research disse esperar agora que o Fed imprima novos aumentos este ano, acrescentando 125 pontos base (uma nova alta de 75 pontos em novembro e outra de 50 b.p. em dezembro).

Para o banco, cortes de taxas ainda são prováveis em 2024, mas podem até ocorrer mais cedo, no final de 2023, se o núcleo da inflação cair mais rápido do que o previsto atualmente.

“A partir de agora, prevemos que o Fed manterá as taxas inalteradas em 4,75% durante a maior parte de 2023, após um aumento de 25 p.b. também em janeiro”, prevê a casa

Julio Hegedus Netto, economista chefe da Mirae Asset Wealth Management, acredita que o recado do Fed tem sido bem entendido. “Nos EUA, o Fed reforçou a narrativa de que é preciso fazer o ‘mal logo de uma só vez’, não esperando mais. Sobre os próximos passos, tudo dependerá dos próximos indicadores. A taxa terminal pode chegar a 5,0%, talvez, no ano que vem”, escreveu.

Impactos

A volatilidade ainda tem marcado o comportamento das Bolsas hoje, a exemplo que aconteceu na quarta-feira. Ontem, como esperado, os índice de Nova York recuaram logo após o anúncio do Fed (às 15h), mas voltaram ao campo positivo no início da coletiva de Jerome Powell. E voltaram a cair quando ele fez comentários a respeito de preocupações com o mercado imobiliário americano.

Hoje, as bolsas em Nova York operam majoritariamente no negativo, mas chegaram a ter breves momentos de alta. Já o Ibovespa hoje avança após Copom ter anunciado uma parada no ciclo de alta da Selic ontem, mantendo-a inalterada nos 13,75%.

Mesmo com o aviso que a autoridade monetária brasileira pode voltar a subir os juros se a inflação se mostrar resistente, ainda pairam dúvidas sobre as futuras decisões.

A BGC Liquidez fez uma pesquisa com 128 players institucionais que negociam no mercado financeiro brasileiro para saber da expectativa para as reuniões seguintes: 98% acreditam que a taxa permanecerá inalterada até o final do ano.

Bancos centrais no mesmo time (ou quase)

A Suíça finalmente saiu de sua política de juros negativos – que já durava sete anos – e anunciou uma alta de 75 pontos base na sua taxas, movendo a taxa principal para 0,50%.

O Banco Central da Noruega também elevou nesta quinta-feira sua taxa básica de juros em 50 pontos-base, para 2,25%, e previu que um novo aumento em novembro é “provável”.

Na sequência, o Banco Central da Inglaterra (BoE), subiu sua taxa em 0,5 pontos porcentuais, para 2,25% ao ano. O comitê de política monetária (MPC, na sigla em inglês) avisou que “tomará as medidas necessárias para devolver a inflação à meta de 2% de forma sustentável no médio prazo”, em linha com a comunicação do Fed.

Chamou a atenção o fato de a decisão ter sido dividida, com votos tanto por uma alta mais dura, de 75 pontos, como por um abrandamento, de 25 p.b.. Mas analistas apontam que as decisões erráticas do BoE se explicam pelo fato de o board ter uma predominância acadêmica.

Contra a maré

Nadando contra a maré, por enquanto, só o Banco Central da Turquia, que – a despeito da inflação mais alta desde 1998 – voltou a cortar o juro básico no país em um ponto porcentual, de 13% para 12%.

Antes disso, a autoridade monetária japonesa (BoJ), manteve sua taxa negativa em 0,1%. Isso desencadeou uma corrida contra a moeda local que obrigou o Banco Central a intervir no câmbio pela primeira vez em 24 anos.

Taxas de juros: confira as principais mudanças recentes feitas por diversos bancos centrais:

  • EUA: ↑ 3,25% (de 2,50%, +0,75), em 21/9
  • Brasil: = 13,75% (igual), em 21/9
  • Japão: = -0,10% (igual), em 22/9
  • Reino Unido: ↑ 1,75% (de 1,50%, +0,50), em 22/9
  • África do Sul: ↑ 6,25% (de 5,50%, +0,75), em 22/9
  • Turquia: ↓ 12,00% (de 13,00%, -1,00), em 22/9
  • Suíça: ↑ 0,50% (de -0,25%, +0,75), em 22/9
  • Noruega: ↑ 2,25% (de 1,75%, +0,50), em 22/9
  • Suécia: ↑ 1,75% (de 0,75%, +1,00), em 20/9
  • Rússia: 7,50% (de 8,00%, -0,50), em 16/9
  • Argentina: ↑ 75,00% (de 69,50%, +5,50), em 15/9
  • Zona do Euro: ↑ 1,25% (de 0,50%, +0,75), em 8/9
  • Canadá: ↑ 3,25% (de 2,50%, +0,75), em 7/9
  • Chile: ↑ 10,75% (de 9,75%, +1,00), em 6/9
  • Coreia do Sul: ↑ 2,50% (de 2,25%, +0,25), em 25/8
  • China: 3,65% (de 3,70%, -0,05), em 22/8

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Roberto de Lira

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