Com impunidade garantida, políticos se comportam como se Brasil estivesse no Antigo Regime

Como um pêndulo, o Brasil vive um período no qual a sociedade balança entre dois riscos polares: a ordem massacrante, na forma do totalitarismo, e o colapso das regras, marcado por uma forte sensação de insegurança e medo em relação ao futuro.

Ao mesmo tempo, a classe política, protegida pela impunidade, se comporta como se o País estivesse no Antigo Regime, época em que as sociedades europeias eram divididas em estamentos – e a aristocracia, sobretudo o rei, não respondia às leis.

Esta é a avaliação de Eduardo Giannetti, economista, filósofo, escritor e imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), em entrevista ao UM BRASIL, uma realização da FecomercioSP, gravada em parceria com o 8º Encontro Internacional de Felicidade e Bem-Estar (Global Meeting for Happiness), realizado no fim de agosto, em Belo Horizonte (MG), pelo Instituto Movimento Pela Felicidade.

“O político brasileiro, quando entra no Congresso, sente como se tivesse ganhado um anelzinho de Giges”, afirma Giannetti, referindo-se à fábula em que um camponês encontra um anel por meio do qual obtém o poder de invisibilidade – tema de um de seus livros, inclusive.

“O Antigo Regime era o do privilégio. A elite no poder, e as leis para o populacho. ‘Eu, aristocrata, estou acima disso, não preciso pautar as minhas ações pela lei, tenho um anel de Giges’”, explica, em alegoria aos políticos brasileiros.

O filósofo aponta que o País só conseguirá construir uma nação com cidadania quando “eliminar esta dupla anomalia dos que estão acima da lei e dos que estão abaixo”.

A política brasileira é muito isto: para os amigos, tudo; para os inimigos, a lei. Ainda estamos numa espécie de Antigo Regime. Por incrível que pareça, o Brasil ainda vive sob muito do que era o passado na Europa pré-Revolução Francesa. Alguns estão acima da lei, e outros estão abaixo, porque vivem na selva do vale tudo e do salve-se quem puder, na marginalidade, na criminalidade e abaixo do marco legal”, sintetiza.

Além disso, Giannetti destaca que, tal qual a aristocracia europeia, o comportamento da classe política brasileira é explicado pela certeza da impunidade.

“O princípio da igualdade perante a lei ainda é um desiderato no Brasil. Não é algo conquistado e garantido para todos”, frisa.

Entre a anomia e o totalitarismo

Giannetti lembra que “a nação mais educada da Europa”, a Alemanha, sucumbiu ao colapso da ordem, sob a forma da República de Weimar, e ao controle massacrante, durante o regime nazista. 

O Brasil vive momentos em que esta dualidade e o pêndulo do deslocamento entre uma e outra marcam a nossa coexistência”, reflete.

Além disso, o imortal da ABL adverte que a turbulência contemporânea ocorre de maneira intencional, no sentido de que alguns grupos usam a violência e a confusão para provocar “algum tipo de ruptura” com o sistema democrático em curso.

“Estas pessoas sonham voltar para 1964 para que a baderna, a confusão, a insegurança, a corrupção, o descalabro, o total esgarçamento das instituições e da imprevisibilidade do dia a dia levem a algum tipo de convulsão e de demanda pelo restabelecimento de uma ordem autoritária. É assim que eu interpreto o momento brasileiro, de um ponto de vista amplo”, salienta.

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