Investi na renda fixa quando a Selic era de 2%; o que fazer com os papéis agora que a taxa alcançou 13,75%?

A renda fixa costuma ser a preferência dos investidores com perfil conservador, que não gostam de “surpresas” no meio do caminho. Mas mesmo ativos que que pagam juros – como títulos públicos, CDBs ou debêntures – nem sempre são capazes de proteger totalmente o portfólio da caixa de pandora que é a economia brasileira. Especialmente diante da transição para o novo governo federal, a partir janeiro de 2023, que tem causado turbulência no mercado.

Há menos de dois anos, a Selic – “taxa mãe” da economia – era de 2% ao ano. Mesmo não favorecendo os investimentos de renda fixa, muitos investidores optavam por ela, principalmente pela segurança. Os meses foram passando e a Selic, subindo. Hoje, está em 13,75% ao ano – e pode virar motivo de desespero para o investidor, que abre o aplicativo da corretora e percebe a desvalorização gritante dos títulos comprados em 2021, quando os juros ainda estavam no menor patamar da história.

Diante dessa situação, é comum o investidor se perguntar: devo vender os títulos e comprar novos, com taxa mais alta, para compensar o prejuízo, ou o melhor é deixar tudo como está e aceitar, que dói menos?

Em ambos os caminhos, há vantagens e desvantagens. “A renda fixa só é fixa no vencimento. Se você tentar vender o ativo antecipadamente, terá o que chamamos de marcação a mercado [atualização do valor dos papéis segundo os preços praticados no mercado no momento atual]”, diz Fernando Zetune Marrocco, CFP da Braúna Investimentos.

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O especialista chama a atenção para quem investiu em títulos de renda fixa entre 2020 e 2021, acreditando que a Selic – que chegou a bater nos 2% ao ano – estabilizaria e ficaria por volta dos 7% ou 8%. Se essa premissa estivesse correta, um CDB prefixado que pagava 8,5% ao ano em março de 2020, por exemplo, seria considerado um investimento com bom retorno. O problema é que ninguém imaginava que, pouco tempo depois, os desdobramentos da Covid-19 e da guerra na Ucrânia obrigariam o Banco Central a levar a Selic para os atuais 13,75% ao ano.

Hoje em dia, segundo Marrocco, com os juros bem mais altos, é possível investir em CDBs prefixados com taxa de 15,35% ao ano e vencimento em maio de 2024. Mas trocar o papel antigo, com juros de 8,5%, pelo novo, com remuneração maior, realmente vale a pena?

Pelos cálculos de Marrocco, matematicamente, a troca não é satisfatória, comparando ativos de prazos parecidos, considerada uma conta mais justa. Alguém que tivesse investido R$ 100 mil no CDB com juros de 8,5% em março de 2020 e decidisse resgatá-lo antecipadamente agora receberia de volta aproximadamente R$ 110 mil, já líquidos de Imposto de Renda.

Se investisse todo esse valor no CDB novo, com juros de 15,35% ao ano, o investidor chegaria ao vencimento (maio de 2024) com um pouco menos de R$ 136 mil. Mas se tivesse simplesmente mantido a aplicação no CDB antigo, obteria um pouco mais de R$ 138 mil no vencimento (março de 2024).

“Neste caso, a única vantagem seria a psicológica. Afinal, o investidor veria seu patrimônio crescendo a uma taxa maior no dia a dia”, diz. “Financeiramente, vale mais a pena carregar até o vencimento”, detalha.

Confira abaixo os detalhes do cálculo de Marrocco:

• Investimento inicial

CDB Pré fixado8,5% ao ano
Data de investimento18/03/2020
Data de vencimento18/03/2024
Investimento inicial R$   100.000
Valor bruto atual (em 17/11/2022) R$   124.181,68
Valor bruto aproximado no vencimento R$   138.362,00
Valor bruto para resgate antecipado (em 17/11/2022) R$   112.617,80
Valor líquido para resgate antecipado (em 17/11/2022) R$   110.725,13

• Troca de investimento

CDB Prefixado15,35% ao ano
Data de investimento17/11/2022
Data de vencimento10/05/2024
Investimento inicial R$   110.000
Valor bruto aproximado no vencimento R$   135.736,41

Fonte: Fernando Zetune Marrocco, Braúna Investimentos

A única forma de conseguir calcular com segurança a viabilidade desta troca é se o reinvestimento for feito em renda fixa. E para sair ganhando, é preciso apostar em um título com o vencimento mais longo e taxa mais alta. “Depois de algum tempo, este novo título vai compensar o prejuízo da troca. Lembrando que é importante conversar com o assessor de investimento para fazer esses cálculos”, sugere Marrocco.

Daniella Italiano, analista da Eleven, avalia que, se o investidor resolver manter os papéis em carteira, os novos aportes devem acontecer com taxas melhores, de modo que a rentabilidade total aumentaria. Se o investidor conseguir se desfazer dos papéis, mesmo com prejuízo, é necessário calcular em quanto tempo ele recuperaria a perda, considerando um novo título em condições melhores, além de qual será o risco atrelado a esse investimento.

“O resgate desses títulos, para ser vantajoso ao investidor, depende de muitos fatores. O primeiro deles é a liquidez”, explica. “É necessário que existam interessados em comprar o papel. Se o ativo tiver sido adquirido em um momento de taxas menores de juros, o prejuízo ao investidor é muito provável”. E diante do prejuízo, é necessário avaliar as condições do novo investimento: taxas, indexador e prazo de vencimento.

Outro ponto importante é o risco do ativo. “Nada adianta o investidor sair de um papel de risco zero e, para tentar recuperar o prejuízo mais rapidamente, expor o seu portfolio a mais risco, aumentando a possibilidade de perder mais ainda”.

Prejuízos no Tesouro Direto

“Se o investidor tiver feito alocação no Tesouro Direto, já registrou a piora da rentabilidade do título ao longo do tempo, devido à abertura [aumento] dos juros”, constata Rodrigo Marcatti, CEO da Veedha Investimentos. Nesse caso, a troca pode doer menos no psicológico.

Marcatti cita casos recentes de clientes que tinham comprado títulos atrelados à inflação no Tesouro Direto – as NTN-Bs, também chamadas de Tesouro IPCA+ – e que os trocaram por Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) da Petrobras, isentos de Imposto de Renda, com uma taxa um pouco melhor. Os CRIs pagam um prêmio de risco sobre os títulos públicos de mesma duration (prazo).

“Com o CRI da Petrobras, foi possível encurtar o período do investimento de 2035 para 2032 e obter retorno maior no vencimento [dada a isenção de IR]. No caso dos papéis que já têm uma marcação a mercado, é mais fácil convencer o investidor, porque não vai haver impacto negativo no curto prazo”, detalha. “Esse impacto já aconteceu ao longo dos últimos meses”.

Para os outros papéis de crédito privado – CDBs, por exemplo – o investidor que vender poderá ter os títulos recomprados na curva atual, às vezes pagando um “pênalti” pela venda antecipada. “Em alguns casos, vai fazer sentido trocar um título comprado no passado por um título atual, com taxas de agora. Mas o prazo terá que ser alongado”, explica Marcatti.

Suponha um investimento de R$ 100 mil em um ativo prefixado que, com o deságio devido à alta dos juros, hoje vale em torno de R$ 85 mil. “Aplicando nas taxas atuais, ele pode encontrar um título de risco semelhante, com um prazo mais longo, com taxa de 15% ao ano, por exemplo. E calcular em quanto tempo é possível recuperar os R$ 15 mil perdidos no negócio. Para fazer sentido, é preciso chegar perto do vencimento do título com o valor positivo”.

Trata-se da “magia” dos juros compostos. Na visão dos especialistas, pode valer a pena vender um título antigo se o investidor conseguir uma rentabilidade maior num título novo, para compensar o impacto negativo. “O retorno chega em igual data, mas com valor maior”, diz Marcatti, alertando que é necessário fazer as contas dessa “construção aritmética”, o que exige a ajuda de um assessor.

Tal e qual uma ação em queda

Alexandre Satoru Yamamoto, analista de Renda Fixa da Levante Investimentos, tem uma opinião diferente para investimentos no Tesouro Direto. Para ele, vender o título agora seria o equivalente a se desfazer de uma ação na baixa, o que não parece ser a melhor estratégia.

Entre março do ano passado e hoje, o CDI rendeu quase 15%, enquanto as LTNs (título que no Tesouro Direto é conhecido como Tesouro Prefixado) com vencimento em janeiro de 2024 rendeu pouco mais de 5%. “Se a pessoa manteve o título até agora, é mais indicado continuar carregando o título pelo menos até 2024. Isso porque, para o ano que vem, estão previstos os primeiros cortes na Selic. E é nesse ciclo que os prefixados se valorizam”, ressalta Yamamoto.

Quando se investe em prefixados, é preciso ter sempre em mente os ciclos das taxas de juros. O Brasil atravessou um período de alta nos últimos 18 meses, quando os prefixados perderam valor. A partir do ano que vem – dependendo da definição da política fiscal do novo governo – deve ter início o ciclo de cortes de juros, época em que esses papéis se valorizam. Se o investidor não tiver urgência, a recomendação é continuar carregando.

Ao vender agora, segundo Yamamoto, a vantagem é poder escolher um outro indexador, como a taxa do CDI ou o IPCA. Em tempos de transição de governo e uma possível política fiscal expansionista, a inflação pode surpreender, e os títulos indexados ao IPCA poderiam ter uma performance melhor. “Entretanto, a grande desvantagem é realizar todo o prejuízo na venda do título antigo”, diz.

A importância do prazo

São muitos os fatores que precisam ser levados em conta na hora de decidir se é melhor esperar pelo vencimento do título com juros bem abaixo do que os pagos atualmente, ou se o caminho é vender e enfrentar o prejuízo.

Antonio van Moorsel, diretor do Advisory e sócio da Acqua Vero Investimentos, chama a atenção para um ponto importante. Ele afirma que, antes de bater o martelo ao analisar os cenários dos investimentos em renda fixa, é bom olhar não apenas a taxa, mas também a duração dos investimentos – a duration.

“Se a gente analisa dois títulos cujo spread [taxa de juros] é exatamente o mesmo, mas a duration de um é mais curta do que a do outro, o prejuízo é maior no papel com duration mais elevada”, detalha van Moorsel. É preciso também levar em conta as questões pessoais. O cliente pode precisar resgatar os recursos para cumprir necessidades que não estavam previstas.

Autoconhecimento

Antes de pensar no prejuízo e tentar recuperá-lo, o investidor deve se fazer algumas perguntas. Por que investiu naquela época? Tinha alguma meta?

Se o objetivo, quando a taxa estava a 2%, era comprar um imóvel e a pessoa conseguiu, ela não teve prejuízo. “A melhor forma de fazer investimento é casar com alguma meta financeira”, ensina Patricia Palomo, economista e planejadora financeira CFP. “Se o investidor buscou previsibilidade, alcançou o que queria. Pode não ser o melhor retorno, mas o adequado”.

A especialista lembra que a busca incessante pelo melhor retorno provoca sempre decisões ineficientes: “A corrida atrás do rabo”, segundo ela.

Porém, se a escolha foi para se proteger da inflação, houve um erro. Há títulos específicos para isso. Se o objetivo é fazer uma viagem, deve-se fazer um investimento na moeda do local a ser visitado.

Patrícia explica que projeções, no momento atual, são difíceis de fazer, devido à troca de governo. Não há como saber como ficarão os juros e a política fiscal, entre outras variáveis. De qualquer forma, diz ela, não há uma resposta óbvia.

Ela sugere que, se o investimento for de curto prazo, o melhor é esperar pelo vencimento, recuperar os recursos, mesmo se forem pequenos, e escolher o próximo ativo de acordo com as próprias necessidades.

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Neide Martingo

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