Renda fixa em dólar? Bonds de empresas brasileiras emitidos no exterior são opção para diversificar carteira

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Diante dos altos e baixos da economia brasileira, a palavra de ordem para o investidor é a diversificação. E quem quer – literalmente – ampliar os horizontes na renda fixa tem como alternativa os bonds emitidos por empresas brasileiras no exterior.

Investir em renda fixa no mercado internacional é possível, e tem se tornado relativamente mais simples. Os bonds corporativos, títulos de renda fixa emitidos por empresas em moeda estrangeira, são negociados em mercados externos. Apesar de serem papéis denominados em dólar, não apenas empresas americanas podem emiti-los. As brasileiras também estão no páreo.

Esses ativos têm condições predefinidas, como taxa de remuneração e prazo, e podem ser lançados por uma ampla variedade de empresas de setores distintos. São, na prática, comparáveis às debêntures negociadas localmente.

O mercado de renda fixa nos Estados Unidos é significativamente maior do que o brasileiro. O estoque combinado de títulos soberanos (emitidos pelo Tesouro americano) e corporativos somou US$ 32,6 trilhões (equivalente a aproximadamente R$ 182 trilhões). Em igual período, a combinação dos títulos soberanos e emitidos por empresas no Brasil chegou a R$ 6,3 trilhões.

Considerando apenas os títulos corporativos, os chamados corporate bonds, o estoque no Brasil alcançou R$ 1,26 trilhão em 2022. É mais do que os cerca de R$ 1 trilhão do ano anterior – mas bem menor que os US$ 10,1 trilhões (aproximadamente R$ 52,8 trilhões) dos Estados Unidos, equivalentes a 12% do mercado global.

Vale registrar que todos os bonds são marcados a mercado. Ou seja, é possível acompanhar diariamente na carteira de investimentos quais são os preços atuais dos títulos em caso de necessidade de venda antecipada (antes do prazo de vencimento).

De acordo com a Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), as doze emissões de bonds realizadas no ano passado somaram US$ 5,5 bilhões. Metade dessas emissões tem prazos de seis a dez anos, com taxa média de remuneração de 6,2%. Do total, US$ 4,5 bilhões foram captados por empresas e US$ 1,1 bilhão, por instituições financeiras.

Já dados compilados pela Eleven, casa de research, indicam que a média diária de negociação de ativos de crédito (CRAs, CRIs e debêntures) no Brasil foi de aproximadamente R$ 1,5 bilhão em 2021, contra uma média equivalente a R$ 200 bilhões no mercado de bonds nos Estados Unidos.

Com juros altos, vale a pena investir em – ou emitir – bonds?

Qual é a vantagem para uma empresa brasileira emitir bonds lá fora? E para os investidores locais, vale a pena comprá-los?

Segundo Marília Fontes, economista e sócia-fundadora da Nord Research, a vantagem para as empresas está no custo. “A companhia se financia por meio do mercado, com taxas de juros muitas vezes mais competitivas. A taxa de juro americana é mais baixa”, diz. “É possível pagar mais barato para se financiar, mesmo tendo que fazer a conversão do câmbio”.

“As empresas que emitem títulos lá fora, financeiras ou não, conseguem credibilidade e mais investidores. Elas entram em um universo bem maior”, diz Pierre Oberson, professor de finanças da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Ele lembra que investidores estrangeiros têm menos estímulos para comprar dívidas de empresas brasileiras aqui no País. Para eles, o melhor é que a companhia brasileira emita bonds, completa. E como a regulação no exterior pode ser mais pesada que a brasileira, a empresa passa ao mercado a imagem de solidez quando o faz.

Para Carlos Eduardo Daltozo, chefe de renda variável da Eleven Financial, até pouco tempo atrás uma empresa brasileira não tinha incentivo para emitir dívida em dólar por conta dos subsídios oferecidos pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). Se havia crédito disponível no banco, por que captar no exterior?

Isso mudou, assim como o acesso dos investidores a esses papéis. Segundo Daltozo, por muito tempo apenas clientes institucionais podiam investir em bonds. Atualmente, essa é uma possibilidade para pessoas físicas também. “É uma evolução”, diz.

Por serem nada mais do que títulos de renda fixa, semelhantes aos negociados no Brasil, os bonds estão sujeitos aos mesmos riscos: de crédito, de mercado, de liquidez e de reinvestimento.

Mas, na comparação com o mercado brasileiro de dívida, o americano apresenta um risco de liquidez menor, por conta do volume de negociação bem maior nos Estados Unidos. Afinal, quanto mais investidores negociam títulos entre si, maior a probabilidade de que uma venda de título, antes do vencimento no mercado secundário, seja bem-sucedida.

De acordo com Finra (autoridade regulatória da indústria financeira americana), há companhias brasileiras na lista de bonds mais negociados em 2022, considerando o número de operações realizadas. Confira a lista abaixo:

TickerEmpresaRemuneração prefixada atual (% ao ano)VencimentoVolume negociado em 2022 (US$ bilhões)Número de operações em 2022
VALEBZVale3,7508/07/303.1805.357
PETBRAPetrobras5,603/01/312.2165.504
SUZANOSuzano3,1215/01/322.1813.273
BRASKMBraskem4,531/01/302.0242.968
SUZANOSuzano3,7515/01/311.6243.531
CSNABZCSN6,7528/01/281.4733.898
SUZANOSuzano6,015/01/291.4492.571
BRASKMBraskem4,510/01/281.3412.321
VALEBZVale6,8721/11/361.3382.880

Fonte: Finra

Já os riscos de crédito, de mercado e de reinvestimento estão relacionados a características específicas de cada emissão de bonds, como o indexador do papel, o prazo e o emissor – assim como na renda fixa corporativa brasileira.

Com um detalhe: um elemento adicional dos papéis de renda fixa de empresas brasileiras emitidos no exterior é o risco cambial. “Os títulos são denominados em dólares e, a depender da variação da moeda americana em relação ao real, pode haver perdas ou ganhos adicionais em relação ao esperado”, diz Camilla Dolle, head de research de renda fixa da XP. “Por outro lado, o investimento pode ser visto como uma proteção da carteira, por ser em uma moeda forte”.

Alguns especialistas colocam em dúvida o investimento em bonds de companhias brasileiras. Isso porque o investidor não estaria diversificando o risco ao comprá-los, já que a empresa é do Brasil. Não haveria diversificação “geográfica” – apenas atrelaria o investimento ao dólar. Faz sentido?

Marília, da Nord, não concorda. “Se por um lado os bonds brasileiros não aumentam a diversificação geográfica, por outro pagam taxas bem maiores que as empresas americanas de risco similar, apenas porque o Brasil não tem rating AAA”, diz. “Então, nós que conhecemos e confiamos na empresa, acabamos tendo esse beneficio do retorno maior”.

Como começar?

Mas vamos ao passo a passo. Quem quer começar a investir em bonds de empresas brasileiras no exterior, antes de mais nada, precisa ter uma conta numa corretora internacional. O passo seguinte é fazer uma análise de crédito tradicional. “É preciso saber a qualidade da saúde financeira da empresa, o quanto tem de margem, o quanto gera de caixa e se consegue pagar as dívidas dentro do cronograma de amortização”, detalha Marília, da Nord. Também é importante saber a quantas anda o setor em que a companhia está inserida, segundo a analista.

Marília diz que é possível ter bons retornos em dólar. “Boas empresas estão pagando em torno de 7% ao ano em dólar, o que é uma taxa bem alta. Muitos investidores qualificados brasileiros procuram opções lá fora por conta da incerteza que o aumento de gastos do novo governo oferece. O objetivo é diversificar o patrimônio”.

Apesar de a taxa Selic, de 13,75% ao ano, ser praticamente o dobro de 7% ao ano, é preciso colocar na conta o risco Brasil e o risco cambial. “No Brasil, a conversão de real para dólar não é livre, nem existe uma taxa para apurar a comparação”, detalha Marília. Em sua visão, não são investimentos nem taxas comparáveis.

É importante lembrar que existe volatilidade também no mercado externo. Ao longo de 2022, os juros lá fora também subiram – o que refletiu nos preços marcados a mercado dos bonds. Além disso, o movimento também minou a atratividade dos papéis de empresas brasileiras perante os investidores internacionais, que passaram a encontrar boa remuneração em papéis de outros países também.

“Houve reprecificação de bonds locais, de empresas europeias e americanas, que ofereceram oportunidades de retornos altos nas suas próprias jurisdições”, diz José Eduardo Laloni, vice-presidente da Anbima. “Isso não ajudou as empresas de países emergentes a captar lá fora”.

Mesmo assim, uma vantagem para quem escolhe títulos de renda fixa de empresas brasileiras lá fora é a remuneração atrelada ao dólar. “Podemos dizer que é um spread de crédito para o investidor. Há um prêmio maior para o mercado emergente”, explica Daniel Onaga, analista de renda fixa da Eleven. Ele dá um exemplo de bom investimento: comprar um bond perpétuo do Banco do Brasil (BBAS3), que  tem rendimento próximo de 9% ao ano.

Percepção de solidez é diferencial

“Quando um investidor compra um título no exterior, ele quer solidez: receber o valor dele de volta com os juros acordados. Há empresas que só emitem no Brasil e outras que estão lá fora. O investidor pode escolher a segunda opção porque acredita que a empresa que expandiu horizontes deve ser mais sólida. A operação passa confiabilidade”, diz Pierre, da FGV.

Atualmente, até mesmo as corretoras brasileiras oferecem opções ao investidor. “A pessoa tem que fazer uma avaliação e pensar se realmente quer se expor e que risco aceita correr”, afirma o professor.

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Neide Martingo

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